terça-feira, julho 26, 2005

O sabor amargo dos regressos

A Comporta é uma aldeola alentejana no istmo da península de Tróia. Há uns anos atrás, tudo o que se podia encontrar na Comporta eram alguns restaurantes de beira de estrada, o posto da GNR, um balcão do BES e uma das melhores praias do litoral alentejano.
Hoje em dia, fruto dos empreendimentos turísticos e mais alguns condomínios, as diferenças são assinaláveis. O número de cafés e restaurantes cresceu, as ruas perderam a sua calma típica e, na praia, nasceram dois restaurantes dignos de telenovela, a tresandar a yuppismo bem instalado na vida. O areal está agora tão cheio de turistas que não se diferencia, nesse aspecto, de qualquer praia da Caparica.
Existe um paradoxo do turismo nos espaços rurais. O turista procura, por regra, um estereótipo do rural, enquanto os locais aspiram, ao nível das infra-estruturas, a parecer-se um pouco mais com o meio urbano. Coisas simples como comércio e serviços. Algo que não os obrigue a percorrer quilómetros em busca da localidade mais próxima que se assemelhe vagamente a uma cidade.
Nesta medida, de turista para turista só varia o preconceito em relação ao que é o rural. Daqui resulta que o que o turista procura não se coaduna com a estratégia de desenvolvimento do espaço visitado. O que tem como consequência que os regressos, com o passar dos anos, mais cedo ou mais tarde, se tornem menos agradáveis. O desencanto com o destino escolhido acaba por ser uma fatalidade.

2 Comments:

At 12:10 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Um excelente post que levanta, com muita argúcia, o bloqueio das contradições geradas pelo turismo rural. Este texto só veio reforçar a minha convicção de que a componente do “desenvolvimento turístico” comporta o inevitável preço de destruição da paisagem humana e social (isto, nos casos mais benignos, porque normalmente não fica só por aí). Porque, acredito, os turistas são os maiores predadores sociais da idade moderna, além de que, como consumidores fáceis e passivos, favorecem o mercado da falsificação da representação dos usos e costumes. Por isto mesmo, o turismo é a pior via para se conhecerem terras e gentes. E os “lugares turísticos”, embora enriqueçam pessoas, perdem inexoravelmente a alma.

João Tunes

 
At 9:24 da manhã, Blogger Miguel said...

Precisamente. O "pacote turístico" é a pior forma de conhecer os destinos na sua complexidade social e favorece, sem dúvida alguma, a falsificação e a caricatura da realidade.
E depois existe essa aparente incompatibilidade entre os interesses do turista, que pretende a preservação daquilo que ele julga ser o rural, e o habitante da região, que aspira a uma vida melhor. Algo que, penso eu, num mundo altamente mediatizado, só se resolve quando o paradigma do turismo se alterar novamente, deixando de lado o turismo de estereótipos.

 

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