sexta-feira, junho 03, 2005

A morte banalizada

A RTP anda a emitir a notícia da descoberta de uma filmagem que documenta os massacres verificados na guerra da Bósnia. Nas imagens transmitidas assiste-se, quase em primeiro plano, à execução de um homem. Em nenhum dos noticiários foi feita qualquer advertência sobre o conteúdo violento das imagens.
Há uns anos, Sophie Marceu revelou numa entrevista, após a sua participação num dos filmes da saga "007", o seu espanto por, numa história em que são mortas dezenas de pessoas, ter sido obrigada a repetir inúmeras vezes uma cena até que o enquadramento da sua movimentação permitisse ocultar-lhe o mamilo.
Estranha hierarquia de sensibilidades: a morte está amplamente banalizada, mas o corpo (nem sequer é de sexo que falamos) é assunto tabu. No caso da RTP, ninguém se lembrou de advertir os espectadores para o fuzilamento a que iam assistir. No caso da indústria cinematográfica, a violência armada é facilmente tolerada, enquanto meia dúzia de fotogramas de um mamilo justificam uma censura feroz.
Os problemas das sociedades com o campo sexual e erótico são sobejamente conhecidos. O que causa perplexidade é que se esteja a chegar a um tempo em que a morte violenta não suscita reacções de monta. Um filme não passa de um filme, mas o assassinato a sangue frio a passar em horário nobre como apenas mais uma notícia já é assustador.

4 Comments:

At 2:49 da tarde, Blogger Helena Araújo said...

Michael Moore (de quem não gosto muito mas que consumo compulsivamente...) contou um episódio igualmente revelador. No seu filme "Roger and me", mostra um negro que é alvejado a sangue frio na rua. Daí a alguns minutos, o filme mostra uma mulher desempregada que vende coelhos e pergunta ao comprador "pet or food?". O comprador diz "food" e a mulher mata o coelho com uma paulada. Moore diz algo como "se eu recebesse 10 dólares por cada vez que alguém reclamou sobre a cena do coelho, estava rico. Mas nunca ninguém disse nada sobre a cena em que alguém dispara sobre um negro que atravessa a rua."

 
At 3:22 da tarde, Blogger lb said...

Também não percebo porque é assim. Mas sei que é assim. E isto é que é perverso.

 
At 10:34 da manhã, Blogger Helena Araújo said...

Talvez seja o efeito habituação.
Apercebi-me disso claramente no verão em que visitei dois campos de concentração. Primeiro Dachau, onde se vêem os instrumentos de tortura, as barracas, as prisões, e depois Bergen-Belsen, onde só se vêem espaços relvados com placas onde está escrito "você está a ouvir o silêncio de 16.000 mortos". Bergen-Belsen foi incrivelmente mais doloroso que Dachau, porque eu não estava preparada para esse vazio horroroso; mas já tinha visto filmes em número suficiente para ter criado "anticorpos" em relação aos objectos do terror. Dachau foi uma confirmação do que eu já sabia, Bergen-Belsen foi um murro no estômago porque não tinha efeito habituação.
***
A propósito: já repararam que as notícias sobre os atentados no Iraque estão cada vez mais corriqueiras? Tenho a sensação que a violência está a aumentar, todos os dias há atentados que matam dezenas de civis, mas isso já não parece ser uma notícia muito importante.

 
At 12:59 da tarde, Blogger Miguel Silva said...

As notícias do Iraque são um exemplo perfeito da banalização da violência pelo tanto que têm para analisar. Há a clássica confusão entre novidade e notícia, há o cansaço das redacções e há o cansaço do espectador. É algures no meio destas responsabilidades partilhadas que se encontram as razões da banalização.

 

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